Fundamentos em Doenças Valvares – Tudo o que Você Precisa Saber Sobre Insuficiência Aórtica – Episódio 2: Sinais, Sintomas e Exame Físico
Dra. Flávia Girard
A insuficiência aórtica (IAo) é uma valvopatia caracterizada pelo fechamento incompleto da valva aórtica durante a diástole, permitindo o refluxo de sangue da aorta para o ventrículo esquerdo. Esse mecanismo resulta em sobrecarga volumétrica crônica do ventrículo esquerdo, levando, progressivamente, à dilatação cavitária e à hipertrofia excêntrica, com repercussões hemodinâmicas e clínicas características.
O exame físico na insuficiência aórtica é particularmente rico, sobretudo nos casos de regurgitação importante. À palpação dos pulsos periféricos, pode-se identificar o clássico pulso em martelo d’água, ou pulso de Corrigan, caracterizado por elevada amplitude, ascensão rápida e colapso abrupto. Esse achado reflete o aumento do volume sistólico e a queda acentuada da pressão arterial durante a diástole.
Na aferição dos sinais vitais, é frequente a presença de pressão arterial divergente, com elevação da pressão sistólica e redução da pressão diastólica, resultando em aumento da pressão de pulso. Tal alteração decorre, por um lado, do aumento do débito sistólico durante a ejeção ventricular e, por outro, da queda rápida da pressão diastólica secundária ao refluxo valvar. À palpação precordial, o ictus cordis pode apresentar-se desviado para a esquerda e inferiormente, em decorrência da dilatação e hipertrofia excêntrica do ventrículo esquerdo.
À ausculta cardíaca, o achado clássico é um sopro diastólico aspirativo, de alta frequência e caráter decrescente, melhor audível no foco aórtico e no foco aórtico acessório, especialmente com o paciente inclinado para frente. A segunda bulha costuma estar hipofonética. Nos casos de maior gravidade anatômica, o sopro tende a ser holodiastólico.
Em alguns pacientes, pode-se auscultar também um sopro mesossistólico de hiperfluxo, relacionado ao aumento do volume ejetado através da valva aórtica durante a sístole. Outro achado clássico é o sopro de Austin-Flint, um sopro diastólico em ruflar auscultado no foco mitral, causado pelo jato regurgitante aórtico que impede a abertura da cúspide anterior da valva mitral durante a diástole e gera um sopro de estenose mitral funcional.
Além disso, a insuficiência aórtica importante pode cursar com diversos sinais periféricos decorrentes do aumento da pressão de pulso, motivo pelo qual classicamente se descreve o paciente como o “paciente que pulsa”. Entre esses sinais destacam-se:
- Sinal de Musset: movimentos rítmicos da cabeça sincronizados com os batimentos cardíacos;
- Dança das artérias: pulsação visível das artérias cervicais;
- Sinal de Müller: pulsação sistólica da úvula;
- Sinal de Quincke: pulsação capilar visível no leito ungueal;
- Sinal de Traube: som em “tiro de pistola” auscultado sobre a artéria femoral;
- Sinal de Duroziez: sopros sistólico e diastólico na artéria femoral à compressão;
- Sinal de Becker: pulsação das artérias retinianas ao exame de fundo de olho.
Embora esses achados sejam classicamente descritos, muitos deles são de difícil identificação na prática clínica e, quando presentes, sugerem insuficiência aórtica de maior gravidade.
Do ponto de vista clínico, a insuficiência aórtica crônica grave apresenta evolução tipicamente progressiva. Durante longos períodos, o paciente pode permanecer assintomático, apesar do aumento gradual do ventrículo esquerdo. Os sintomas geralmente surgem apenas após importante remodelamento ventricular e redução da reserva funcional miocárdica.
As manifestações clínicas mais frequentes incluem dispneia aos esforços, ortopneia e dispneia paroxística noturna, que se desenvolvem de forma gradual. A angina pode ocorrer, especialmente nas fases mais avançadas, mesmo na ausência de doença coronariana obstrutiva, em decorrência do aumento da demanda miocárdica e da redução da perfusão coronariana durante a diástole. A angina também pode ocorrer, de forma paradoxal, durante o sono e cursar com o despertar do paciente, uma vez que durante o sono tende-se a bradicardia com piora da pressão de perfusão coronariana.
É comum que pacientes com insuficiência aórtica importante relatem palpitações e percepção incômoda dos próprios batimentos cardíacos, sobretudo em decúbito dorsal. Alguns referem desconforto torácico relacionado ao impacto do coração contra a parede torácica. Cefaleia pulsátil, lipotimia e, eventualmente, síncope também podem estar presentes, particularmente em casos avançados.
Referências Bibliográficas
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3. Braunwald E, Zipes DP, Libby P, Bonow RO, Mann DL, Tomaselli GF, editors. Braunwald’s Heart Disease: A Textbook of Cardiovascular Medicine. 12th ed. Elsevier; 2022.
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