Fundamentos em doenças valvares – tudo o que você precisa saber sobre endocardite infecciosa – Episódio 1: fisiopatologia
Marcelo Kirschbaum
A endocardite infecciosa (EI) é um problema de saúde pública global, cuja relevância vem crescendo devido ao aumento de sua incidência. Esse fenômeno está associado principalmente ao envelhecimento populacional, ao uso mais frequente de dispositivos vasculares invasivos e ao incremento de procedimentos de cirurgia cardíaca que envolvem próteses intracardíacas e endovasculares.
Em 2019, a incidência de EI foi estimada em 13,9 casos por 100.000 pessoas por ano, sendo responsável por mais de 66.000 mortes globalmente. Apesar dos avanços tecnológicos e do desenvolvimento de novas terapias antibióticas, a mortalidade intra-hospitalar da doença continua elevada, alcançando até 40% em alguns centros de referência. Assim, o diagnóstico precoce e preciso é essencial para possibilitar o tratamento adequado, aumentando as chances de sucesso terapêutico e reduzindo a morbidade associada.
Descrita pela primeira vez em 1646 por Lazare Rivière, a endocardite infecciosa é definida como uma doença do endocárdio que apresenta predileção por acometer as valvas cardíacas. A condição ocorre após a adesão bacteriana ou fúngica ao tecido endocárdico, preferencialmente em áreas com lesões endoteliais. Os locais mais frequentemente acometidos incluem valvas cardíacas lesionadas ou portadoras de próteses, além de dispositivos vasculares. Após a adesão bacteriana, desencadeia-se uma cascata inflamatória mediada por citocinas, integrinas e fatores teciduais, resultando no recrutamento de células do sistema imune.
Monócitos e plaquetas são atraídos e ativados na região afetada, promovendo a produção de fibronectina, que contribui para a formação de um trombo. A interação entre o trombo e o crescimento do microrganismo responsável pela EI cria um ambiente favorável ao desenvolvimento de uma vegetação, estrutura fundamental para o diagnóstico da doença. Em muitos casos, a configuração dessa vegetação dificulta a ação terapêutica, tornando a absorção de antibióticos um grande desafio e complicando o tratamento eficaz da EI.
As bactérias mais frequentemente associadas à EI variam de acordo com o perfil do paciente, a porta de entrada da infecção e o ambiente microbiológico hospitalar. O Staphylococcus aureus é o agente etiológico predominante, sendo frequentemente relacionado ao uso de dispositivos invasivos e infecções associadas aos cuidados de saúde. Já os estreptococos do grupo viridans, que habitam a cavidade oral, são comumente associados a infecções adquiridas na comunidade, especialmente em pacientes com doença valvar prévia. Outros agentes relevantes incluem os enterococos, frequentemente relacionados a infecções do trato gastrointestinal ou urinário, e os bacilos gram-negativos do grupo HACEK, menos prevalentes, mas importantes em casos específicos. A identificação do agente causal é essencial para guiar a escolha da terapia antimicrobiana adequada.
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Acabamos de lançar mais uma série exclusiva: Fundamentos em Doenças Valvares – tudo o que você precisa saber sobre endocardite infecciosa. No primeiro episódio, Dr. Marcelo Kirschbaum fala da fisiopatologia e alguns dados históricos globais da doença.
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