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Fundamentos em doenças valvares – tudo o que você precisa saber sobre estenose mitral Episódio 6: quando indicar a intervenção

Dra. Flavia Girard

Nos países subdesenvolvidos, como o Brasil, a principal causa de estenose mitral é a
etiologia reumática. Já nos países desenvolvidos, predomina a forma degenerativa,
caracterizada por calcificação importante do anel mitral em pacientes idosos.
A ecocardiografia é fundamental para identificar a causa da estenose mitral, pois a etiologia
determina as opções de tratamento. Os critérios ecocardiográficos que definem estenose
mitral anatomicamente importante são: área valvar ≤ 1,5 cm² e gradiente transvalvar médio
diastólico ≥ 10 mmHg.

Quando há dúvida sobre a gravidade da estenose mitral, alguns exames complementares
podem ajudar na elucidação diagnóstica. O ecocardiograma transesofágico (ETE) é útil para
melhor avaliar a anatomia valvar e descartar trombos no átrio esquerdo. O estudo
hemodinâmico invasivo pode ser empregado quando persistirem dúvidas quanto ao
gradiente diastólico mitral. Já o teste ergométrico ou o ecocardiograma sob estresse é
indicado para pacientes com sintomas incertos ou discrepantes, permitindo avaliar o
comportamento do gradiente mitral e das pressões pulmonares durante o exercício.
O comprometimento reumático da valva mitral pode ser avaliado pelo escore de
Wilkins-Block, que analisa quatro aspectos morfológicos: mobilidade, espessamento das
cúspides, calcificação e acometimento subvalvar. Cada item recebe pontuação de 1 a 4,
com total variando de 4 a 16.

A valvoplastia mitral por cateter-balão (VMCB) é o tratamento de escolha para pacientes
com estenose mitral reumática anatomicamente importante que apresentam sintomas
(NYHA ≥ II) ou complicadores, como fibrilação atrial recente por remodelamento do átrio
esquerdo, ou hipertensão pulmonar ≥ 50 mmHg em repouso ou ≥ 60 mmHg ao esforço.
A VMCB só pode ser realizada em pacientes com escore de Wilkins-Block ≤ 8, desde que a
pontuação para calcificação e acometimento subvalvar seja até 2, o que prediz um maior
sucesso do procedimento. A VMCB é contraindicada na presença de trombo no átrio
esquerdo, evento embólico recente ou insuficiência mitral moderada ou importante. Em
gestantes ou pacientes de alto risco cirúrgico, a VMCB pode ser considerada com escore
até 10, desde que os itens de calcificação e subvalvar permaneçam até 2.
Quando há reestenose sintomática após a VMCB, a reintervenção costuma ser substituição
valvar cirúrgica. Entretanto, uma nova VMCB pode ser considerada se não houver
contraindicações e se o mecanismo da reestenose for principalmente a refusão comissural.
Quando a VMCB é contraindicada, a cirurgia convencional (troca valvar ou comissurotomia)
é indicada apenas para pacientes com estenose mitral reumática anatomicamente
importante e sintomas NYHA ≥ III. É importante ressaltar que a melhora de classe funcional
com o uso de medicações que reduzem a sobrecarga de volume e a frequência cardíaca
(diuréticos, betabloqueadores, digoxina, bloqueadores dos canais de cálcio não
diidropiridínicos e ivabradina) não deve atrasar a indicação de intervenção. Destaca-se
que a estenose mitral é a única valvopatia cuja indicação cirúrgica exige sintomas mais
avançados (CF III). A intervenção também é indicada na presença dos mesmos
complicadores citados anteriormente: fibrilação atrial recente ou sinais de hipertensão
pulmonar.

Por outro lado, na estenose mitral de origem calcífica — mais prevalente em idosos,
geralmente com múltiplas comorbidades e outras valvopatias — o cenário é diferente e as
indicações de intervenção são bem mais restritas.

Em pacientes com estenose mitral calcífica, anatomicamente significativa, sintomáticos e
sem resposta ao tratamento farmacológico, a substituição valvar convencional pode ser
considerada, preferencialmente após discussão em Heart Team. Trata-se de um
procedimento tecnicamente complexo. Muitas vezes é necessária extensa descalcificação
do anel, que pode atingir os folhetos e o aparelho subvalvar, frequentemente associada à
insuficiência mitral. A disjunção átrio-ventricular é uma das complicações intraoperatórias
mais graves, com mortalidade extremamente elevada, frequentemente ainda durante o ato
cirúrgico.

Por isso, a substituição valvar na estenose mitral degenerativa deve ser realizada apenas
em centros altamente experientes. A avaliação pelo Heart Team é essencial para evitar
intervenções fúteis, já que a mortalidade após o procedimento permanece alta, entre 10% e
30% no primeiro ano.

A abordagem transcateter, chamada Valve-in-MAC (Mitral Annular Calcification), vem sendo
estudada, mas os resultados ainda são pouco promissores e faltam evidências de ensaios
clínicos randomizados.

Fontes:

  1. Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias – 2020
  2. 2025 ESC/EACTS Guidelines for the management of valvular heart disease

Assista ao video

No sexto episódio da série Fundamentos em Doenças Valvares – tudo o que você precisa saber sobre estenose mitral, a Dra. Flavia Girard explica quando é indicado o tratamento intervencionista.

 

Anomalias das artérias coronárias

Neste episódio do Podcast Triple I, o Dr. Nilson Poppi fala sobre as anomalias das artérias coronárias.

 

Tudo o que você precisa saber sobre estenose mitral Episódio 2: raio-x do tórax e eletrocardiograma

Neste episódio do Podcast Triple I, o Dr. Renato Nemoto explica quais os achados da estenose mitral nos exames de raio-x e eletrocardiograma.

Este conteúdo faz parte da série Fundamentos em Doenças Valvares – tudo o que você precisa saber sobre estenose mitral, que já está com episódios disponíveis aqui na plataforma.

 

 

Tudo o que você precisa saber sobre complicações pós-infarto agudo do miocárdio – Episódio 1: Complicações mecânicas

No novo episódio do Podcast Triple I, o Dr. Cesar Augusto Caporrino fala sobre as complicações mecânicas pós-infarto agudo do miocárdio.

Este conteúdo faz parte da série “Fundamentos em Síndrome Coronária Aguda”, que está disponível na nossa plataforma.

 

Fundamentos em doenças valvares – tudo o que você precisa saber sobre estenose mitral Episódio 5: estudo hemodinâmico invasivo

Dra. Mariana Pezzute Lopes

Estenose Mitral e o Papel do Cateterismo Direito

A estenose mitral permanece uma das valvopatias mais relevantes no cenário brasileiro, especialmente devido à alta prevalência de febre reumática. Apesar do ecocardiograma continuar sendo o exame de escolha para o diagnóstico inicial, o cateterismo cardíaco direito assume papel fundamental quando há incerteza sobre a gravidade funcional, discrepância entre sintomas e achados ecocardiográficos ou suspeita de hipertensão pulmonar significativa com necessidade de uma melhor avaliação diagnóstica e prognóstica.

Quando o Cateterismo Direito é Indicado?

  • Sintomas desproporcionais ao grau de estenose avaliado pelo ecocardiograma.
  • Discordância entre área valvar mitral e gradiente médio.
  • Avaliação de hipertensão pulmonar
  • Preparação para intervenção em pacientes limítrofes

Marcadores Hemodinâmicos Importantes:
O estudo hemodinâmico invasivo permite medir de forma direta variáveis essenciais:

  • Pressão capilar pulmonar (PCP) determinada pela pressão de oclusão da artéria pulmonar: é considerada elevada quando maior ou igual a 15mmHg
  • Gradiente transmitral invasivo (gradiente entre a capilar pulmonar e a pressão diastólica final do ventrículo esquerdo- PD2) se maior ou igual a 10mmHg sugere estenose mitral importante
  • Débito cardíaco (DC)
  • Hipertensão pulmonar: definida pela pressão arterial pulmonar média (PAPm) acima de 20mmHg
  • Resistência vascular pulmonar (RVP) calculada pelo gradiente transpulmonar (PAPm menos PCP) dividido pelo débito cardíaco. RVP maior que 2 Wood sugere componente pré capilar combinado.


Em alguns casos, para pacientes hipovolêmicos e/ou bradicárdicos, pode ser indicada a prova com atropina e expansão volêmica. Sugere-se fazer 0,5-1mg de atropina endovenosa e soro fisiológico 500-1000ml visando evitar que o gradiente transvalvar mitral tenha um resultado falsamente baixo. 

Através da prova de atropina e volume o paciente portador de estenose mitral importante apresentará aumento significativo do fluxo valvar mitral e, pelo aumento da frequência cardíaca, terá menos tempo diastólico para enchimento ventricular, aumentando a pressão capilar pulmonar por congestão retrógrada,  sem aumento concomitante da PD2. Consequentemente, este paciente passará a ter um gradiente transmitral maior ou igual a 10mmHg (o que não aconteceria no paciente sem estenose mitral significativa). 

Além disso, em alguns casos, a presença de  uma resistência vascular pulmonar maior do que 2 Wood pode indicar componente pré-capilar associado à congestão venocapilar pulmonar, ou seja indica a presença de vasculopatia pulmonar combinada. Tais pacientes irão apresentar melhora da hipertensão pulmonar após a intervenção valvar, porém sem resolução total, e com maior risco cirúrgico e pior prognóstico a longo prazo..

Segue figura representativa (Grossman, 1986) esquematizando um estudo hemodinâmico invasivo de um paciente com pressão capilar pulmonar elevada (25mmHg), pressão diastólica final de 5mmHg, revelando um gradiente transvalvar mitral de 20mmHg (>10mmHg), confirmando o diagnóstico de estenose mitral importante. O exame também revela a presença de hipertensão pulmonar, demonstrada por uma pressão arterial pulmonar média acima de 20 mmHg (32 mmHg) e um gradiente transpulmonar baixo (32 menos 25= 7mmHg) permitindo inferir uma resistência vascular pulmonar baixa (< 2 Wood, considerando um débito cardíaco normal).

Podemos dizer que o cateterismo direito não é apenas complementar ao ecocardiograma, mas sim uma ferramenta decisiva para compreender completamente a fisiologia, gravidade e prognóstico da estenose mitral.  O uso adequado dessa ferramenta permite intervenção mais precoce, redução de riscos e tomada de decisão baseada em parâmetros objetivos.

 

Referências: 

  1. ESC/EACTS Guidelines for the Management of Valvular Heart Disease, 2025.
  2. Sociedade Brasileira de Cardiologia. Diretrizes de Valvopatias, 2020.
  3. Grossman W. Hemodynamics in Mitral Stenosis. 1986.
  4. Humbert M et al. European Heart Journal (2022) 43, 3618–373.

Assista ao video

No quinto episódio da série Fundamentos em Doenças Valvares – tudo o que você precisa saber sobre estenose mitral, a Dra. Mariana Pezzute Lopes explica o estudo hemodinâmico invasivo, o cateterismo direito, para detecção e diagnóstico da patologia. 

Avaliação invasiva de microcirculação e doença coronariana não obstrutiva parte 2

No novo episódio do Podcast Triple I, Dr. Carlos Campos, Dra. Fabiana Hanna Rached, Dr. Pedro Guimarães e Dr. Thiago Abizaid dão continuidade ao bate-papo sobre avaliação invasiva de microcirculação e doença coronariana não obstrutiva (parte 2).

 

Avaliação invasiva de microcirculação e doença coronariana não obstrutiva parte 1

No novo episódio do Podcast Triple I, o Dr. Thiago Abizaid e o Dr. Rafael Bergo recebem o Dr. Pedro Guimarães para um bate-papo sobre avaliação invasiva de microcirculação e doença coronariana não obstrutiva (parte 1).

 

Fundamentos em doenças valvares – tudo o que você precisa saber sobre estenose mitral Episódio 4: como fazer o diagnóstico ecocardiográfico

Maicon Felipe Ribeiro da Cruz

A estenose mitral é uma doença que se caracteriza por estreitamento do orifício valvar, que em adultos normais pode variar de 4 a 6 cm2. Em adultos, a etiologia da estenose mitral é em grande parte decorrente de cardiopatia reumática. Muitos pacientes com estenose mitral reumática não têm história conhecida de febre reumática, mas a morfologia da valva vista ao exame ecocardiográfico permite o estabelecimento de um diagnóstico de febre reumática antecedente. Outras causas menos comuns de estenose mitral incluem a calcificação do anel mitral, observada principalmente em pacientes idosos, a origem congênita (como a válvula mitral em “paraquedas”), o lupus eritematoso sistêmico e a doença carcinoide.

Os aspectos característicos da estenose mitral de origem reumática, à ecocardiografia bidimensional, incluem fusão comissural, espessamento e calcificação das cúspides valvares e do aparelho subvalvar. Observa-se também a típica abertura em “domo” ou “bastão de hóquei” (Figura 1) da cúspide anterior da valva mitral durante a diástole, especialmente nos cortes paraesternal longitudinal e apical. O átrio esquerdo geralmente encontra-se aumentado. No plano transversal, ao se visualizar a valva mitral de frente, é comum identificar o aspecto característico de abertura em “boca de peixe”.

Figura 1 – Janela paraesternal eixo longo ilustrando a cúspide anterior mitral (a) em aspecto de bastão de hóquei (b). 

Vale ressaltar que em pacientes com estenose importante, principalmente aqueles candidatos à valvoplastia por cateter-balão, deve-se sempre descrever os critérios ecocardiográficos de Wilkins-Block. Esse escore avalia o grau de lesão imposta pela agressão reumática à valva mitral, por meio da avaliação ecocardiográfica com ênfase na descrição dos aspectos estruturais. São considerados quatro parâmetros: mobilidade dos folhetos, espessamento valvar, grau de calcificação e acometimento do aparato subvalvar. Cada item recebe uma pontuação de 1 a 4, resultando em um escore total que pode variar de 4 a 16 pontos. Pacientes com escore de Wilkins-Block igual ou inferior a 8 são considerados bons candidatos à valvoplastia mitral por cateter balão, desde que não haja outras contraindicações.

Em relação à quantificação da gravidade da estenose mitral, a área valvar pode ser aferida por meio da planimetria (Figura 2) da circunferência interna da valva, no plano paraesternal transversal, no ponto de abertura máxima das cúspides, durante a diástole média. Esse método é o mais recomendado para estimar a área da valva mitral, embora apresente limitações em pacientes com valvas intensamente calcificadas ou que já tenham sido submetidos previamente à comissurotomia.

Figura 2 – Janela paraesternal eixo curto ilustrando a planimetria de uma valva mitral estenótica (no exemplo com área de 0,73cm2)

Uma alternativa para a medida da área valvar é a avaliação hemodinâmica pelo Doppler contínuo, que quantifica a estenose por métodos como tempo de meia pressão (conforme a fórmula, área valvar mitral em cm2 = 220/PHT) ou pela equação de continuidade. Conforme as atualizações da diretriz brasileira de valvopatias de 2020, classifica-se como estenose mitral anatomicamente importante aquela com área valvar menor que 1,5cm2 e/ou gradiente diastólico maior ou igual a 10mmHg.

É pertinente destacar que a ecocardiografia permanece como o método preferencial para a avaliação de pacientes com estenose mitral. No entanto, é importante ressaltar que alterações no tempo diastólico ou no estado volêmico podem influenciar o gradiente transvalvar mitral, dificultando a análise precisa da gravidade da estenose. Dessa forma, torna-se necessária uma estreita correlação com a avaliação clínica, considerando complicadores como a fibrilação atrial de início recente e hipertensão pulmonar e, quando indicado, a complementação com outros exames, incluindo o estudo hemodinâmico invasivo.

Referências:

1 – ARMSTRONG, William F.; RYAN, Thomas. Feigenbaum – Ecocardiografia. 7. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2012. ISBN 978-85-277-1842-4.

2 – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA. Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias – 2020. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, v. 115, n. 4, p. 720–775, 2020. DOI: 10.36660/abc.20201047. Disponível em: https://abccardiol.org/article/atualizacao-das-diretrizes-brasileiras-de-valvopatias-2020/

3 – MATHIAS JR., Wilson. Manual de ecocardiografia. 3. ed. São Paulo: Manole Saúde, 2013. ISBN 978-85-204-3700-1.

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No quarto episódio da série Fundamentos em Doenças Valvares – tudo o que você precisa saber sobre estenose mitral, o Dr. Maicon Cruz explica como fazer o diagnóstico ecocardiográfico da patologia.

5 minutos em valvopatias: Diretriz da ESC 2025 para Estenose Aórtica

Neste episódio do Podcast Triple I, Dr. Alberto Hüning traz os resultados das novas diretrizes de estenose aórtica, lançados na ESC 2025.

Este conteúdo faz parte da série “5 Minutos em Valvopatias”, que está disponível na nossa plataforma.

Tudo o que você precisa saber sobre estenose mitral Episódio 2: sinais, sintomas e exame físico

No novo episódio do Podcast Triple I, a Dra. Mariana Pezzute Lopes explica os sinais, sintomas e os exames físicos necessários para fechar o diagnóstico de estenose mitral.

 

Este conteúdo faz parte da série Fundamentos em Doenças Valvares – tudo o que você precisa saber sobre estenose mitral, que já está com episódios disponíveis na plataforma.