Antiagregação plaquetária após cirurgia de revascularização do miocárdio devido à síndrome coronária aguda
Drs. Luciano Moreira Baracioli e Breno Macêdo de Almeida
Unidade Clínica de Coronariopatia Aguda – InCor – HCFMUSP
A recomendação de manter dupla antiagregação plaquetária (DAP) por 1 ano após síndrome coronária aguda (SCA) se mantém, e, após inúmeros estudos clínicos, a última diretriz americana de 2025 sobre SCA1 já nos permite redução deste tempo, em especial nos pacientes de alto risco de sangramento submetidos à intervenção coronária percutânea. Porém, no cenário pós-cirurgia de revascularização do miocárdio (CRM) em pacientes com SCA, a base de evidências para DAP é frágil e amplamente extrapolada de populações sem cirurgia, subanálises e ensaios pequenos com desfechos substitutos (p. ex., patência de enxertos, sem poder para eventos clínicos).
No estudo “CURE”, por exemplo, o benefício da DAP ocorreu no período pré-operatório; após a CRM, não houve redução adicional de eventos no grupo AAS + clopidogrel versus AAS isolado². Em subanálise do estudo “PLATO” (ticagrelor versus clopidogrel em pacientes com SCA), incluindo 1261 pacientes submetidos à CRM dentro de 7 dias após a última tomada da medicação, houve uma redução relativa do desfecho primário (morte cardiovascular, IAM, e AVC) em 12 meses, que foi consistente com os resultados do estudo principal (10.6% [66 of 629] com ticagrelor versus 13.1% [79 of 629] com clopidogrel; HR: 0.84; 95% CI: 0.60 to 1.16; p = 0.29); ticagrelor comparado com clopidogrel foi associado a redução de mortalidade total e cardiovascular sem aumento de sangramento relacionado à CRM3.
Mais recentemente, coortes foram discrepantes em seus resultados em relação ao uso de DAP: estudo coreano, com 3199 pacientes com SCA e submetidos à CRM, demonstrou redução de morte cardiovascular/IAM no longo prazo (5 anos) a favor do uso de DAP (DAP vs. SAPT, 4.0% vs. 7.8%, HR 0.521, 95% IC 0.339-0.799; P = 0.003)4; e, dados do “SWEDEHEART”, que analisou 6558 pacientes (27.6% tratados com AAS + ticagrelor e 72.4% tratados com monoterapia com AAS), não confirmou redução de eventos cardiovasculares maiores (MACE) em 12 meses e apontou aumento significativo de sangramento com DAP5. Meta-análise onde foram incluídos estudos clínicos randomizados (ECR) e observacionais indicaram redução de mortalidade total e cardiovascular e MACE associada ao uso de DAP e aumento de sangramento maior e menor; achados esses que exigem cautela, dado as limitações desta metanálise: presença de 17 estudos observacionais, número limitado de eventos, e muitas heterogeneidades em dados demográficos dos pacientes, duração da terapia antitrombótica, tempo de seguimento e reporte dos desfechos, entre outras limitações6.
Nesse contexto, o estudo “TACSI”7 formulou a pergunta clínica central: pacientes com SCA submetidos à CRM, ticagrelor + AAS por 12 meses reduz, em comparação a AAS isolado, morte, IAM, AVC ou nova revascularização em 1 ano (desfecho primário)? E, como desfecho secundário, avaliou-se o NACE (Net Adverse Clinical Events), que combina o desfecho primário com sangramento maior. O desenho foi um ECR aberto, multicêntrico, baseado em registros de cinco países nórdicos, com análise por intenção de tratar. O uso de registros de saúde de bases nacionais confere “moldura” de vida real (identifica praticamente todos os operados, padroniza o “baseline” e permite um seguimento adequado nacional), minimizando perdas. O caráter aberto pode influenciar decisões como revascularização não planejada ou internações por sangramento; por isso, desfechos objetivos merecem mais peso. A randomização 1:1 assegura equilíbrio causal, e a análise por intenção de tratar estima o efeito da estratégia no mundo real. Os resultados são expostos abaixo (figuras): foram randomizados 2215 pacientes com idade média de 66 anos, 14,4% do sexo feminino, 27,5% diabéticos e 57,6% apresentavam infarto agudo do miocárdio sem elevação do segmento ST (angina instável=32,1% e infarto agudo do miocárdio com elevação do segmento ST=10,2%); no desfecho primário, as curvas de Kaplan–Meier quase se sobrepõem, o HR ≈1,06 (p=0,77) indica ausência de benefício do DAP em 12 meses; desfecho secundário, composto de saldo líquido – somando eficácia e segurança – piora com uso de DAP (HR ≈1,45), em coerência com o aumento de sangramento maior (HR ≈2,5). Dois elementos operacionais ajudam a leitura: 1- A aderência à DAP caiu de ~80% no 1º mês para ~64% em 12 meses (no AAS, >92%), o que reflete efeitos adversos que dificultam adesão da DAP (sangramento e dispneia), e isso poderia diluir qualquer benefício na análise de “intenção de tratar”; no entanto a análise per-protocol (exploratória e sujeita a confundimento) não reverteu o achado principal, o que reduz a plausibilidade de um benefício clinicamente relevante sob a adesão observada; 2- A taxa de eventos observada (5%) foi inferior à prevista (8%), reduzindo o poder para efeito moderado, ainda que afastando um grande benefício clínico em 1 ano.


O que muda “amanhã de manhã”? Em síntese, o estudo “TACSI” colocou um freio útil na inércia de extrapolação de evidências: em SCA pós-CRM, ticagrelor + AAS por 12 meses não melhorou desfechos clínicos e aumentou dano. Até prova robusta em contrário, a conduta mais alinhada à medicina baseada em evidência é parcimônia: AAS isolado como padrão; DAP apenas em casos muito selecionados, por tempo mínimo necessário e sob monitoramento estreito. Portanto, na prática, deveríamos evitar a DAP “automática”; considere-o quando houver indicação independente (p. ex., stent recente) ou outras situações muito particulares, sempre ponderando o risco hemorrágico. Benefícios tardios e aspectos como patência de enxerto seguem em avaliação (follow-up de 10 anos e subestudo de patência do próprio TACSI), mas, por ora, não são suficientes para alterar a conduta.
Referências:
- Rao SV, O’Donoghue ML, Ruel M, et al. 2025 ACC/AHA/ACEP/NAEMSP/SCAI guideline for the management of patients with acute coronary syndromes: a report of the American College of Cardiology/American Heart Association Joint Committee on Clinical Practice Guidelines. JACC. Published online Feb 27, 2025. https://doi.org/10.1016/j.jacc.2024.11.009
2- Yusuf S, Zhao F, Mehta SR, et al. Clopidogrel in Unstable Angina to Prevent Recurrent Events Trial Investigators. Effects of clopidogrel in addition to aspirin in patients with acute coronary syndromes without ST-segment elevation. N Engl J Med. 2001;345:494–502.
3 – Held C, Asenblad N, Bassand JP, et al. Ticagrelor versus clopidogrel in patients with acute coronary syndromes undergoing coronary artery bypass surgery: results from the PLATO (Platelet Inhibition and Patient Outcomes) trial.
J Am Coll Cardiol. 2011;57(6):672-84.4- Choi KH, Song YB, Jeong DS, et al. Differential effects of dual antiplatelet therapy in patients presented with acute coronary syndrome vs. stable ischaemic heart disease after coronary artery bypass grafting. Eur Heart J Cardiovasc Pharmacother.2021;7:517-526.
5- Björklund E, Malm CJ, Nielsen SJ, et al. Comparison of Midterm Outcomes Associated With Aspirin and Ticagrelor vs Aspirin Monotherapy After Coronary Artery Bypass Grafting for Acute Coronary Syndrome. JAMA Netw Open. 2021;4(8):e2122597.
6- Agrawal A, Kumar A, Majid M, et al. Optimal antiplatelet strategy following coronary artery bypass grafting: a meta-analysis. Heart. 2024;110(5):323-330.
7- Jeppsson A, James S, Moller C H,et al. TACSI Trial Group. Ticagrelor and Aspirin or Aspirin Alone after Coronary Surgery for Acute Coronary Syndrome. N Engl J Med publicação online antecipada 1 set. 2025.
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