Fundamentos em Doenças Valvares – Tudo o que Você Precisa Saber Sobre Insuficiência Aórtica – Episódio 4: Como fazer o diagnóstico ecocardiográfico
Dra. Daniella Nazzetta
Diagnóstico ecocardiográfico
O ecocardiograma transtorácico é o principal exame para avaliação inicial frente a suspeita de insuficiência aórtica (IAo). É recomendado como modalidade de primeira linha na avaliação da gravidade da regurgitação, anatomia valvar e remodelamento ventricular esquerdo (VE).
O primeiro passo incluí avaliar a gravidade anatômica da insuficiência. Para isso utiliza-se uma abordagem integrativa considerando parâmetros qualitativos, semiquantitativos e quantitativos. Os métodos quantitativos fornecem medidas objetivas da gravidade da insuficiência conforme estabelecido pelas diretrizes vigentes. Um ERO (área efetiva do orifício regurgitante) ≥ 0,30cm2, um volume regurgitante ≥ 60ml/batimento e uma fração regurgitante ≥ 50% definem insuficiência aórtica importante. Já os métodos semiquantitativos, que indicam IAo importante, incluem a avaliação através do doppler.
- Doppler colorido: largura do jato > 0,65cm área do jato ≥ 60% e vena contracta > 0,6cm.
- Doppler pulsado: a presença de fluxo holodiastólico reverso na aorta descendente ou abdominal.
- Doppler contínuo: um tempo de PHT (pressure half-time) < 200ms indica uma rápida equalização das pressões entre aorta e ventrículo esquerdo. Este método é menos preciso na insuficiência aguda e na presença de disfunção diastólica importante, já que é um parâmetro influenciado pela complacência ventricular e aórtica.
Por último, o método qualitativo inclui uma detalhada avaliação de todo o aparato valvar aórtico, avaliando a presença de alterações como: flail de cúspide, defeito na superfície de coaptação, perfurações, espessamento, calcificações e prolapso.
O segundo passo consiste em definir a etiologia da IAo através da análise anatômica da valva aórtica. Uma avaliação minuciosa dos folhetos é importante para identificar se a valva é tricúspide, bicúspide ou se apresenta alterações congênitas sugestivas. Uma das principais causas em destaque é a doença reumática, ainda bastante prevalente no Brasil e nos países em desenvolvimento. Ainda assim podemos ter etiologia degenerativa, valva aórtica bicúspide, doenças na aorta, sequela de endocardite infecciosa, malformações congênitas e degeneração mixomatosa.
Após a definição da presença ou não de sintomas, o passo seguinte incluí avaliar a presença de complicadores, sendo indispensável no manejo dos pacientes assintomáticos. O complicador mais importante e que traz maior impacto na sobrevida do paciente seria a redução de função sistólica (Fração de ejeção < 50%) que ocorre como resultado do estresse sistólico e dilatação do VE. O remodelamento ventricular também entra como complicador quando temos um diâmetro diastólico do VE (DDVE) > 75mm nos pacientes reumáticos e > 70mm nos não reumáticos, e um diâmetro sistólico do VE (DSVE) > 55mm nos pacientes reumáticos e > 50mm nos não reumáticos. Há evidência que indexar os diâmetros pela superfície corpórea, especialmente em pacientes do sexo feminino, seja mais adequado (DSVE indexada > 25mm/m2).
Outros métodos ecocardiográficos são essenciais na avaliação do paciente com IAo como o strain longitudinal global (SLG). Valores < 19% indicam disfunção subclínica e estão associados a pior prognóstico nos pacientes que possuem fração de ejeção preservada. Além disso, nos pacientes com limitação para realização de ecocardiograma transtorácico ou com discrepância clínica ecocardiográfica, podemos utilizar a modalidade do transesofágico para avaliar com mais detalhes a valva aórtica, ou o ecocardiograma 3D, que permite uma visualização anatômica de alta precisão e medidas mais acuradas.
Concluindo, o ecocardiograma segue sendo o exame de imagem de primeira escolha na avaliação da gravidade, etiologia, complicadores e remodelamento ventricular nos pacientes portadores de IAo. Outros métodos de imagem podem complementar a avaliação ecocardiográfica, sendo fundamental na decisão terapêutica e na prevenção da disfunção ventricular irreversível.
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