Fundamentos em Síndrome Coronária Aguda – Cardiointensivismo – Episódio 1: Infarto com acometimento do ventrículo direito
Dr Cesar Augusto Caporrino Pereira

Introdução
O infarto agudo do miocárdio com acometimento do ventrículo direito (IAM de VD) representa uma entidade clínica particular dentro das síndromes coronarianas agudas, frequentemente subdiagnosticada na prática clínica, mas com impacto significativo na evolução hemodinâmica dos pacientes críticos. Na maioria dos casos, não ocorre de forma isolada, estando associado ao infarto inferior do ventrículo esquerdo, com prevalência estimada entre 24% e 50%, enquanto a forma isolada é observada em aproximadamente 3% dos casos.
Apesar de sua menor massa muscular e relativa resistência à isquemia, o acometimento do ventrículo direito pode levar a deterioração clínica rápida, com evolução precoce para choque cardiogênico quando não reconhecido e tratado adequadamente.
Fisiopatologia
O ventrículo direito possui características anatômicas e funcionais que modulam sua resposta à isquemia. Trata-se de uma câmara de paredes finas (3–5 mm), com menor demanda metabólica e perfusão coronariana que ocorre tanto na sístole quanto na diástole. Além disso, apresenta maior tolerância à hipóxia devido à alta concentração de enzimas glicolíticas anaeróbias.
No entanto, quando ocorre oclusão significativa da artéria coronária direita, particularmente em sistemas de dominância direita, instala-se disfunção contrátil do ventrículo direito. O ponto central da fisiopatologia é que o ventrículo direito mantém o enchimento, mas perde a capacidade de ejeção adequada.
Como consequência:
- Redução do débito do ventrículo direito
- Elevação da pressão venosa sistêmica
- Diminuição do enchimento do ventrículo esquerdo
- Redução do débito cardíaco
Esse mecanismo explica a clássica tríade clínica: hipotensão, turgência jugular e ausculta pulmonar limpa.
Perfil Hemodinâmico
O IAM de VD apresenta um padrão hemodinâmico característico, distinto da falência do ventrículo esquerdo:
- Pressões de enchimento direita elevada (PVC elevada)
- Débito cardíaco reduzido
- Pressão de oclusão pulmonar preservada
- Dependência crítica de pré-carga
A repercussão hemodinâmica ocorre em cerca de 25% a 50% dos casos e pode evoluir rapidamente para choque cardiogênico.
Diferentemente do choque por falência do ventrículo esquerdo, o choque no IAM de VD decorre principalmente da redução do enchimento do ventrículo esquerdo, secundária à falência de ejeção do ventrículo direito.

Figura 1. Classificação de Forrester: no choque cardiogênico com predominância de disfunção do ventrículo direito, o perfil hemodinâmico mais frequentemente observado corresponde ao subgrupo III.
Diagnóstico
O diagnóstico do IAM de VD exige alto grau de suspeição clínica, especialmente em pacientes com infarto inferior associado a instabilidade hemodinâmica.
O eletrocardiograma continua sendo ferramenta essencial, destacando-se o supra de ST em derivações direitas (V3R e V4R), com ponto de corte ≥0,5 mm (ou ≥1 mm em pacientes ≥30 anos). No entanto, a ausência desse achado não exclui o diagnóstico, uma vez que pode ser transitório.
O ecocardiograma desempenha papel central na avaliação funcional, permitindo identificar dilatação e disfunção do VD, além de excluir diagnósticos diferenciais. Em cenários mais complexos, a monitorização invasiva com cateter de artéria pulmonar pode fornecer informações críticas, incluindo índices como o Pulmonary Artery Pulsatility Index (PAPi), útil na identificação de disfunção ventricular direita grave.

Tabela 1. Parâmetros fornecidos pelo cateter de artéria pulmonar
Estudo realizado em pacientes com infarto agudo do miocárdio inferior, submetidos à avaliação hemodinâmica invasiva, analisou os parâmetros descritos acima para identificação de disfunção do ventrículo direito, demonstrando que todos apresentaram boa acurácia diagnóstica. Entre eles, o PAPi destacou-se como o marcador mais sensível e discriminativo para identificação de disfunção ventricular direita significativa, superando os demais parâmetros na estratificação da gravidade (vide figura 2).
Estudo realizado em pacientes com infarto agudo do miocárdio inferior, submetidos à avaliação hemodinâmica invasiva, analisou os parâmetros descritos acima para identificação de disfunção do ventrículo direito, demonstrando que todos apresentaram boa acurácia diagnóstica. Entre eles, o PAPi destacou-se como o marcador mais sensível e discriminativo para identificação de disfunção ventricular direita significativa, superando os demais parâmetros na estratificação da gravidade (vide figura 2).

Figura 2. Parâmetros avaliados no estudo com uso de cateter de artéria pulmonar. PAPi: índice de pulsatilidade de artéria pulmonar; RVSW: trabalho sistólico de VD; RA: pressão de átrio direito; PCWP: pressão capilar pulmonar
Repercussão Hemodinâmica
A repercussão hemodinâmica do IAM de VD é altamente variável, ocorrendo em aproximadamente 25% a 50% dos casos.
Diferentemente do choque cardiogênico clássico por falência do VE, o choque por falência do VD apresenta características específicas:
- Pressão de enchimento direita elevada
- Baixa pressão de enchimento esquerda
- Hipotensão com congestão sistêmica
- Dependência de volume
Esse perfil exige abordagem terapêutica distinta e altamente individualizada.
Tratamento
O manejo do IAM de VD é baseado em princípios distintos daqueles aplicados ao infarto do ventrículo esquerdo, sendo essencial compreender sua dependência de pré-carga.
Revascularização precoce
A reperfusão coronariana precoce é o principal determinante prognóstico, permitindo recuperação da função do ventrículo direito e reversão do quadro hemodinâmico.
Otimização da pré-carga do VD
A reposição volêmica é frequentemente necessária e representa o primeiro passo no manejo do paciente em choque cardiogênico por disfunção do VD, com o objetivo de otimizar o retorno venoso e melhorar o débito cardíaco. No entanto, deve ser conduzida de forma criteriosa, evitando sobrecarga volêmica excessiva, especialmente na presença de sinais de elevação da pressão de oclusão pulmonar.
A monitorização hemodinâmica com cateter de artéria pulmonar constitui ferramenta de grande valor na avaliação da função do ventrículo direito; contudo, sua disponibilidade é limitada em muitas instituições. Nesse cenário, parâmetros mais acessíveis podem auxiliar na tomada de decisão clínica, havendo evidências de que valores de pressão venosa central entre 10 e 14 mmHg se associam a um índice de trabalho sistólico do ventrículo direito próximo do ideal, como ilustrado na figura 3.
O uso de diuréticos deve ser reservado para situações de congestão evidente, enquanto fármacos que reduzem a pré-carga, como opioides e nitratos, devem ser evitados devido ao risco de instabilidade hemodinâmica.

Figura 3. Valores de pressão venosa central entre 10–14 mmHg, associaram-se a um índice de trabalho sistólico do ventrículo direito próximo de 10 g·m/m², configurando um perfil hemodinâmico adequado, levando a um bom desempenho do ventrículo direito. A pressão capilar pulmonar, por outro lado, não apresentou boa correlação com índice cardíaco.
Redução da pós-carga do VD
A correção da hipoxemia, quando presente, é fundamental. Deve-se evitar níveis elevados de PEEP, especialmente acima de 10 cmH₂O, uma vez que podem aumentar a pós-carga do ventrículo direito; na prática, muitos serviços buscam valores mais baixos, em torno de 5 cmH₂O, sempre que possível. Em casos selecionados, o uso de óxido nítrico inalatório pode ser considerado, por sua capacidade de reduzir as pressões do átrio direito e da artéria pulmonar, além de melhorar o índice cardíaco, sem impacto significativo sobre a pressão arterial sistêmica.
Suporte inotrópico
Na ausência de resposta adequada à reposição volêmica, a dobutamina é o agente de escolha, promovendo aumento do débito cardíaco e melhora da função do ventrículo direito.
Suporte circulatório mecânico
Nos casos de choque cardiogênico refratário, o suporte circulatório mecânico pode ser necessário. A ECMO-VA é frequentemente utilizada nesses cenários, por oferecer suporte hemodinâmico global, embora sua indicação deva ser cuidadosamente individualizada conforme o perfil clínico e hemodinâmico do paciente. Por outro lado, o balão intra-aórtico apresenta benefício limitado quando há predominância de disfunção do ventrículo direito, uma vez que seu principal mecanismo de ação está voltado para o ventrículo esquerdo.
Dispositivos de suporte específicos para o ventrículo direito, como o Impella RP e o sistema Protek Duo, também podem ser considerados em cenários selecionados, proporcionando suporte direto ao fluxo pulmonar e à função do VD. No entanto, sua disponibilidade ainda é restrita, não fazendo parte da realidade da maioria dos centros no Brasil.
Considerações na Terapia Intensiva
No ambiente de terapia intensiva, o IAM de VD exige monitorização contínua e abordagem dinâmica. A resposta à reposição volêmica deve ser avaliada de forma seriada, evitando tanto hipovolemia quanto sobrecarga.
Além disso, a interpretação adequada da fisiologia é fundamental para evitar intervenções inadequadas. Diferentemente do infarto do ventrículo esquerdo, a redução da pré-carga pode ser deletéria, e o manejo deve ser guiado por parâmetros clínicos e hemodinâmicos.
Outro ponto importante é reconhecer que a evolução pode ser rápida, com deterioração precoce, exigindo prontidão para escalonamento terapêutico, incluindo uso de inotrópicos e suporte mecânico.
Conclusão
O infarto do ventrículo direito é uma condição com fisiopatologia e implicações clínicas próprias, que exige reconhecimento precoce e abordagem terapêutica direcionada. A dependência de pré-carga, a importância da revascularização precoce e o risco de deterioração hemodinâmica rápida tornam essencial o domínio dessa entidade no contexto da terapia intensiva.
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