A base genética da doença arterial coronariana: do gene único ao risco poligênico

Dr. Bruno Mioto

A doença arterial coronariana (DAC) é uma condição complexa, resultante da interação entre fatores ambientais, comportamentais, metabólicos e genéticos. Embora os fatores de risco tradicionais — como tabagismo, hipertensão arterial, dislipidemia e diabetes mellitus — sejam fundamentais na prática clínica, evidências acumuladas ao longo de décadas demonstram que a genética exerce papel central na suscetibilidade individual à DAC. Essa contribuição genética é heterogênea e envolve tanto variantes raras de grande efeito quanto centenas de variantes comuns de pequeno efeito individual, mas com impacto populacional relevante.

Estudos familiares e em gêmeos já haviam demonstrado herdabilidade significativa para DAC fatal, estimada em até 50%. A partir de 2007, com o advento dos estudos de associação genômica ampla (genome-wide association studies – GWAS), tornou-se possível mapear de forma sistemática as bases genéticas da doença. Revisão recente publicada no New England Journal of Medicine sintetiza esse avanço e discute suas implicações para compreensão fisiopatológica, estratificação de risco e desenvolvimento terapêutico.

Formas monogênicas: importância clínica, impacto populacional limitado

O exemplo paradigmático de predisposição genética à DAC é a hipercolesterolemia familiar (HF), uma condição monogênica incompletamente dominante, descrita inicialmente na primeira metade do século XX. Variantes patogênicas nos genes LDLR, APOB e PCSK9 resultam em elevações acentuadas do LDL-colesterol desde o nascimento e estão associadas a risco substancialmente aumentado de DAC prematura.

A HF heterozigótica ocorre em aproximadamente 1 a cada 250 indivíduos. Mesmo quando comparados a indivíduos com níveis semelhantes de LDL-colesterol, portadores de variantes causais apresentam risco 2 a 3 vezes maior de DAC, o que reforça o papel independente da genética além da exposição lipídica isolada. Ensaios clínicos e estudos observacionais demonstram que esses pacientes se beneficiam de forma particularmente intensa da redução agressiva do LDL-colesterol, fundamento que sustenta metas terapêuticas mais rigorosas nas diretrizes internacionais.

Apesar de sua grande relevância clínica individual, as formas monogênicas explicam apenas uma pequena fração da carga total de DAC na população. Outras condições genéticas raras — como a hipercolesterolemia autossômica recessiva, a sitosterolemia e variantes em genes relacionados à sinalização do óxido nítrico ou ao transporte de colesterol — também estão associadas à DAC precoce, mas têm impacto populacional limitado.

Arquitetura poligênica da DAC

A maior parte do risco genético da DAC decorre da contribuição poligênica. Meta-análises recentes de GWAS, envolvendo mais de um milhão de participantes, identificaram mais de 300 loci genéticos associados à doença. Essas variantes estão distribuídas em múltiplas vias biológicas, incluindo metabolismo lipídico, inflamação, pressão arterial, função endotelial, imunidade, obesidade e diabetes.

Cada uma dessas variantes exerce efeito pequeno e isoladamente insuficiente para fins de predição clínica. No entanto, seu efeito combinado explica parcela substancial da suscetibilidade hereditária à DAC. Essa visão é coerente com o modelo multifatorial descrito nos capítulos de aterosclerose e prevenção cardiovascular do Braunwald’s Heart Disease, no qual a aterogênese é entendida como resultado de múltiplos estímulos biológicos convergentes ao longo do tempo.

Escore de Risco Poligênico: conceito e desempenho

O Escore de Risco Poligênico (Polygenic Risk Score – PRS) integra milhares de variantes genéticas comuns em um único escore contínuo, que reflete o risco genético relativo de um indivíduo em comparação com a população geral. Na população, o PRS apresenta distribuição aproximadamente normal.

Indivíduos situados nos 5% superiores da distribuição do PRS apresentam risco de DAC entre 3 e 5 vezes maior em relação aos indivíduos com risco médio. Esse aumento de risco é independente da história familiar autorreferida, o que indica que o PRS captura informação genética adicional não plenamente refletida pela anamnese clínica tradicional.

Importante ressaltar que o PRS não substitui escores clínicos consagrados. Seu valor reside na modulação do risco absoluto, quando integrado à avaliação clínica basal. Na prática, o risco relativo derivado do PRS pode ser combinado ao risco absoluto estimado por ferramentas clínicas, como o SCORE2, refinando a estratificação individual.

Aplicações clínicas potenciais e limitações

As evidências atuais sugerem maior utilidade clínica do PRS em cenários específicos: indivíduos com risco clínico intermediário, adultos jovens — nos quais os escores tradicionais subestimam o risco de longo prazo — e pacientes com DAC prematura, nos quais o componente genético pode contribuir para elucidar a etiologia da doença.

Entretanto, limitações relevantes permanecem. A maioria dos dados genéticos disponíveis deriva de populações de ascendência europeia, o que reduz a acurácia do PRS em outros grupos étnicos. Além disso, não há consenso quanto ao escore ideal, tampouco padronização universal para sua apresentação ou incorporação em diretrizes clínicas. Questões relacionadas à custo-efetividade, impacto na tomada de decisão e equidade de acesso ainda exigem avaliação prospectiva.

Implicações terapêuticas e prevenção

Um dos achados mais consistentes da literatura é que indivíduos com alto risco genético apresentam maior benefício absoluto e relativo com terapias de redução do LDL-colesterol, incluindo estatinas e inibidores de PCSK9. Estudos observacionais e análises pós-hoc de ensaios clínicos indicam que o risco associado a um PRS elevado pode ser significativamente atenuado por intervenções farmacológicas e por estilo de vida saudável.

Esse conceito reforça uma mensagem central também presente no Braunwald: embora o risco genético seja determinado ao nascimento, a expressão clínica da doença é profundamente influenciada por exposições modificáveis ao longo da vida.

Conclusão

O avanço no entendimento da base genética da doença arterial coronariana transformou a forma como compreendemos sua fisiopatologia, sua heterogeneidade clínica e as oportunidades de prevenção. A distinção entre formas monogênicas raras e a contribuição poligênica ampla permite uma visão mais precisa do risco individual.

O Escore de Risco Poligênico representa uma ferramenta promissora para refinamento da estratificação de risco, especialmente quando integrado à avaliação clínica tradicional. Embora ainda não defina condutas de forma isolada, ele contribui para identificar indivíduos que podem se beneficiar de intervenções mais precoces e intensivas, alinhando-se ao conceito moderno de prevenção cardiovascular personalizada, baseada em evidências sólidas e biologicamente plausíveis.

 

Referências

Schunkert H, Natarajan P, Samani NJ.
The Inherited Basis of Coronary Artery Disease.
New England Journal of Medicine. 2026;394:576–587.
doi:10.1056/NEJMra2405153

Libby P, Bonow RO, Mann DL, Tomaselli GF, Bhatt DL, eds.
Braunwald’s Heart Disease: A Textbook of Cardiovascular Medicine.
13th ed. Philadelphia: Elsevier; 2026.

 

 

 

Síndrome Coronariana Crônica

Dissecando a nova diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – Parte 3

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No 3º episódio do conteúdo “Dissecando a nova diretriz de Síndrome Coronariana Crônica”, os Drs. Carlos Campos, Nilson Poppi e Rafael Bergo discutem como a tecnologia mudou a tomada de decisão na sala de intervenção.

Eles explicam que não basta mais apenas “olhar” a lesão na angiografia; hoje, há ferramentas que dizem exatamente se aquela placa causa isquemia e como tratá-la com segurança.

O episódio também destaca a angioplastia no alívio de sintomas e a evolução da precisão técnica: a avaliação fisiológica (FFR/iFR) agora é essencial (Classe 1) para validar lesões intermediárias, enquanto a imagem intravascular reduz a mortalidade em 50% em casos complexos.

O Triple I é um projeto idealizado pelo InCor HCFMUSP!

 

 

 

 

Dissecando a nova diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – parte 2

 

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Na segunda parte do conteúdo “Dissecando a nova diretriz de Síndrome Coronariana Crônica”, o Dr. Bruno Mioto e o Dr. Nilson Poppi contam quais são as atualizações para o tratamento medicamentoso da patologia. Confira!

Em breve, divulgaremos os próximos episódios deste conteúdo.

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Dissecando a nova diretriz de Síndrome Coronariana Crônica – parte 1

 

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Você está atualizado sobre a nova diretriz de Síndrome Coronariana Crônica?

O Dr. Bruno Mioto, juntamente com a equipe de especialistas do Incor, preparou uma série de 3 episódios para trazer até você as principais novidades no tema. No primeiro episódio, o Dr. Luiz Antônio Machado César, que também é um dos editores do documento, explica os novos critérios de diagnóstico da patologia. Confira!

Acompanhe nossas redes sociais, em breve divulgaremos os próximos episódios deste conteúdo.

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Lipoproteína (a) na prática do cardiologista

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Vamos bater um papo sobre o uso de Lipoproteína (a) no dia a dia do cardiologista?

As Dras. Viviane Zorzanelli e Luhanda Monti avaliam juntas os prós e contras do uso deste medicamento.

 

FAME 3 trial – 5 anos:PCI ou CABG na DAC triarterial? Insights contemporâneos

Dra. Luhanda Monti

O estudo FAME 3, publicado no The Lancet em abril de 2025 com resultados de 5 anos de seguimento, redefine paradigmas no tratamento da doença arterial coronariana (DAC) triarterial. Ao comparar a intervenção coronária percutânea (PCI) guiada por reserva fracionada de fluxo (FFR) com a cirurgia de revascularização miocárdica (CABG), o ensaio oferece insights contemporâneos valiosos para orientar decisões clínicas em cenários complexos 

 

Desenho do estudo: 

Trata-se de  um ensaio clínico randomizado, multicêntrico, de não inferioridade,  que comparou ICP guiada por FFR usando stents liberadores de zotarolimus de última geração versus CABG em 1500 pacientes com DAC triarterial,  sem envolvimento de tronco de coronária esquerda (TCE), Syntax médio de 38. Realizado em 48 hospitais na Europa, EUA, Canadá, Austrália e Ásia. 

Os principais critérios de exclusão foram choque cardiogênico, infarto agudo do miocárdio ( IAM) com supra de ST em 5 dias e fração de ejeção < 30%.

Desfechos: 

O desfecho primário de 1 ano foi eventos cardiovasculares e cerebrovasculares adversos maiores, definidos como morte por qualquer causa, IAM, acidente vascular cerebral (AVC) ou revascularização repetida. 

Desfecho primário de 5 anos: Utilizou um desfecho primário composto de morte por todas as causas, IM ou AVC.

Figura 1: Dados demográficos dos pacientes, lesões e procedimentos

Principais Resultados do Estudo

Aos 5 anos de seguimento, a PCI atingiu a não inferioridade à CABG para o desfecho primário composto de morte, AVC ou IAM. Entretanto, é digno de nota que o grupo submetido à PCI  apresentou maior incidência de IAM e necessidade de revascularização repetida em comparação à CABG. 

Diferença entre os resultados de 1 ano e 5 anos de seguimento: 

Na análise de 1 ano,  o desfecho primário ocorreu em 10,6% e 6,9% dos pacientes nos grupos PCI e CABG guiados por FFR, respectivamente, com HR 1,5 IC 95% 1,1 – 2,2] e P = 0,35 para não inferioridade ( Figura 2 ). PCI, portanto, não conseguiu atingir a não inferioridade em relação à CABG 1 .

Na análise de 5 anos, o desfecho primário, um composto de morte por todas as causas, IAM e AVC, ocorreu em 16% e 14,1% na PCI  e CABG guiadas por FFR, respectivamente, com HR de 1,16 [IC 9,5% 0,89 – 1,52], P = 0,27, sem diferença significativa entre as coortes ( Figura 2 ).

FIGURA 2: 


NEJM 2021 e The Lancet 2025.

Figura 3: Desfechos secundários aos 5 anos

Avanços Tecnológicos:

Stents farmacológicos de última geração e a otimização da técnica pela FFR minimizaram diferenças históricas entre PCI e CABG, sugerindo que a evolução tecnológica possa equalizar desfechos em longo prazo.

Discussão: 

Avanços Tecnológicos:

Stents farmacológicos de última geração e a otimização da técnica pela FFR minimizaram diferenças históricas entre ICP e CRM, sugerindo que a evolução tecnológica possa equalizar desfechos em longo prazo. A taxa de uso da imagem intravascular para guiar o procedimento foi baixa (12%) e isso  reflete as taxas de imagem nos EUA e no mundo – portanto, o resultado do estudo é generalizável para a prática atual do mundo real. Considerando a miríade recente de dados demonstrando  os benefícios nos resultados da PCI com imagem intravascular, é possível que o uso possa ter contribuído para os resultados no braço de PCI e talvez, estudos futuros ampliando o uso de imagem, possam mostrar mais benefícios. 

Aplicação na Prática Clínica

A escolha entre PCI e CRM deve considerar:

  • Complexidade anatômica das lesões (ex.: calcificação extensa ou bifurcações, padrão anatômico- uni ou multiarterial com ou sem acometimento de TCE).
  • Características clínicas  (idade, comorbidades, fragilidade e risco cirúrgico, risco de sangramento, função ventricular, presença de diabetes e outras comorbidades).
  • Preferências do paciente quanto à invasividade do procedimento.

Historicamente a CABG tem se mostrado superior à PCI no cenário de DAC crônica multiarterial de elevada complexidade anatômica, como o próprio estudo Syntax mostrou, sobretudo quando se trata de pacientes diabéticos. No entanto, a cardiologia intervencionista evoluiu estrondosamente e parece estar alcançando resultados semelhantes também em pacientes de maior complexidade anatômica. 

O FAME 3 veio a atualizar as evidências, deixando a mensagem de que a PCI pode ter resultados semelhantes em termos de mortalidade no longo prazo, embora as custas de uma maiores taxas de IAM e revascularização adicional, o que é condizente com as diferenças de cada método. A CABG tem maior potencial de atingir uma revascularização  completa pois by-passa todo o território doente, ao passo que a PCI trata lesões focais. Em pacientes jovens e multiarteriais e com baixo risco cirúrgico, a CABG continua sendo a primeira opção. No entanto, caso haja algum empecílio à CABG, como risco cirúrgico, ausência de factibilidade técnica, ou negativa por parte do paciente, a PCI contemporânea se torna uma opção bastante atrativa mesmo em pacientes de elevada complexidade anatômica.

 

Papel do HEART TEAM 

O heart team composto por um cirurgião cardíaco, um cardiologista clínico e um hemodinamicista, é essencial para analisar a factibilidade técnica e os riscos inerentes tanto à ICP quanto à CABG.  Além disso, é preciso balizar fatores clínicos de risco do próprio paciente que possam interferir no resultado final, em termos de risco- benefício. Essa visão global garante decisões individualizadas e alinhadas às evidências científicas. 

Importância da Terapia Clínica Otimizada:

Independentemente da estratégia escolhida, é crucial reforçar o controle de fatores de risco (hipertensão, diabetes, tabagismo, obesidade) e adesão a medicamentos como antiagregantes plaquetários e estatinas, buscando metas mais rígidas para reduzir eventos cardiovasculares futuros.

Monitoramento Contínuo:

Pacientes submetidos a qualquer intervenção merecem um seguimento mais de perto e otimização clínica. Contudo, diante dos resultados do FAME 3 presume-se que um paciente multiarterial complexo submetido à PCI, possa exigir um acompanhamento mais rigoroso devido ao risco aumentado de revascularização repetida e IAM tardio.

Conclusão

O FAME 3 reforça que a PCI guiada por FFR é uma alternativa viável à CABG em pacientes selecionados com DAC triarterial (excluindo lesão de TCE),  especialmente naqueles com anatomia favorável e alto risco cirúrgico. No entanto, a CABG mantém vantagens em casos de maior complexidade anatômica ou quando a durabilidade da revascularização é prioritária, sobretudo em pacientes mais jovens.

Referência:

Fearon WF, Zimmermann FM, Ding VY, et al.  Outcomes after fractional flow reserve-guided percutaneous coronary intervention versus coronary artery bypass grafting (FAME 3): 5-year follow-up of a multicentre, open-label, randomised trial. Lancet. 2025 Apr 26;405(10488):1481-1490. 

 

Colchicina na Prevenção Secundária da Doença Coronária – Análise Crítica dos Estudos LODOCO2, COLCOT e CLEAR SYNERGY OASIS-9

Dra. Luhanda Monti

Análise Crítica dos Estudos LODOCO2, COLCOT e CLEAR SYNERGY OASIS-9

Colchicina na Prevenção Secundária da Doença Coronária

A inflamação exerce um papel central na patogênese do desenvolvimento, instabilidade e ruptura da placa aterosclerótica na doença arterial coronária (DAC). Apesar dos avanços terapêuticos, pacientes com DAC permanecem sob alto risco de eventos cardiovasculares futuros, sobretudo após sofrerem infarto agudo do miocárdio (IAM), ao que chamamos de risco residual. Diversos estudos reportam que mesmo com os fatores de risco tradicionais controlados e LDL na meta terapêutica, ainda há elevado risco de eventos atribuídos à inflamação crônica residual.  Dessa forma, uma miríade de pesquisas em andamento para preencher esta lacuna. 

Três grandes estudos recentes – LODOCO2, COLCOT e CLEAR SYNERGY OASIS-9 – buscaram elucidar o papel da colchicina neste cenário. LODOCO 2 no cenário de DAC crônica e COLCOT nos agudos, foram positivos em termos prognósticos. Os resultados foram  guiados por redução de IAM e revascularização, sem diferença em mortalidade. Nesse cenário a colchicina foi  aprovada pelo FDA, passando a ser a única droga capaz de reduzir o risco inflamatório residual. Inicialmente com recomendação classe 2b pela diretriz americana de DAC, mais recentemente, recebeu um upgrade para 2a pela última diretriz europeia de DAC crônica. Todavia, para a surpresa de todos, o estudo CLEAR SYNERGY, apresentado do congresso TCT em Washington D.C, não mostrou benefício prognóstico da colchicina iniciada após 72 hora da intervenção coronária percutânea (ICP)  no contexto de pós IAM.  Esses resultados divergentes suscitam questões importantes que merecem uma análise crítica aprofundada e condutas individualizadas na prática. 

Contextualização da teoria inflamatória

O entendimento de que a aterosclerose coronariana é um processo ativo, de incorporação de LDL e cuja inflamação está presente em todas as fases da doença coronária aterosclerótica, data meados do século XIX, sendo corroborado nos anos 1980, após a descoberta de macrófagos e linfócitos T. O ensaio clínico randomizado Canacinumabe Antiinflammatory Thrombosis Outcomes Study (CANTOS), o primeiro a estabelecer a prova de conceito da teoria inflamatória,  demonstrou que em pacientes com histórico de infarto e proteína C reativa  (PCR)  ≥2, a inibição da interleucina-1β ( citocina chave na sinalização de IL-6, um dos fatores mais importantes do complexo imune-inflamatório, que determina o crescimento da placa de ateroma e sua ruptura) pelo anticorpo monoclonal injetável canacinumabe, reduziu o risco de eventos cardiovasculares (CV) em 15% vs.  placebo, sem impactar os níveis de colesterol, embora com a ressalva de aumento ligeiro na incidência de infecções fatais. Em contrapartida, o metotrexato não afetou os resultados CV ou os marcadores inflamatórios no Cardiovascular Inflammation Reduction Trial (CIRT). Desde então, a busca por terapias anti-inflamatórias eficazes na prevenção secundária e redução do risco residual inflamatório tem sido um campo de intensa investigação nas últimas décadas. 

A colchicina emergiu como um candidato promissor, visto que é uma droga barata, com efeitos colaterais não fatais, geralmente bem tolerada e com um potente efeito anti-inflamatório. A droga exerce sua ação anti inflamatória por diversas vias, como a inibição da polimerização da tubulina e  geração de microtúbulos, reduzindo a ativação e migração de neutrófilos aos locais de inflamação. Além disso, vários estudos reportam sua ação em reduzir a ativação do inflamassoma NLRP3, uma plataforma multiproteica que ativa a caspase-1, responsável pela maturação de citocinas pró-inflamatórias como a interleucina-1β (IL-1β), IL-18 e IL-6. Estudos sugerem que a diminuição de IL-1β e  IL-6 (altamente aterogênica), além da inibição de moléculas de adesão, reduz a resposta inflamatória crônica que contribui para a progressão da aterosclerose e a instabilidade das placas coronárias. No sangue, é possível dosar a PCR ultrassensível, que tem relação linear com o aumento do risco CV.

LODOCO2 e COLCOT: Promessa de um Novo Paradigma

Os estudos LODOCO2 e COLCOT publicados em 2020 e 2019, respectivamente,  trouxeram resultados positivos. O LODOCO2, focado em pacientes com DAC crônica estável, demonstrou redução de 31% no risco relativo de eventos CV. De forma similar, o COLCOT, realizado em pacientes pós-infarto recente, mostrou uma redução de 23% no risco de eventos. A redução dos desfechos foi impulsionada  por menores taxas de IAM e revascularização adicional sem haver, no entanto, redução de mortalidade. Esses resultados corroboraram a hipótese inflamatória da aterosclerose e sugeriram um novo paradigma no tratamento da DAC. Em agosto de 2024 a colchicina recebeu um upgrade de recomendação para 2a visando melhora de prognóstico na DAC crônica, pela diretriz europeia. 

CLEAR SYNERGY OASIS-9: Um Contraponto Inesperado

Contrastando com os achados promissores do COLCOT e LODOCO2, o estudo CLEAR SYNERGY OASIS-9 apresentado em novembro de 2024 no congresso do TCT em Washington, não mostrou benefício significativo da colchicina em pacientes pós IAM. O resultado inesperado repartiu opiniões na comunidade cardiológica, mas merece uma reflexão cuidadosa sobre as diferenças metodológicas e contextuais entre as evidências existentes e o impacto na prática. 

Desenho do Estudo: Trata-se de um ECR, multicêntrico, duplo-cego, placebo controlado, cujas análises foram conduzidas com o princípio de intention-to-treat. 

Estudo fatorial 2×2, no qual 7060 pacientes pós IAM foram alocados randomicamente, dentro de 72 horas da ICP índice para receber  colchicina 0,5 mg diariamente versus placebo e espironolactona 25 mg diariamente versus placebo. Aproximadamente 95% dos pacientes apresentaram  IAM com supradesnível de ST (IAM CSST). A mediana de seguimento foi de 3,5 anos. 

Vamos às análises: O seu desenho fatorial 2×2 incluindo a espironolactona introduz fator de confusão e complexidades adicionais. A potencial interação entre colchicina e espironolactona é desconhecida e pode ter mascarado os efeitos individuais da colchicina. O uso da espironolactona no IAM de pacientes com FE ≤40%, possui benefícios cardiovasculares bem estabelecidos, como visto no estudo REMINDER e ALBATROSS. Os três estudos foram robustos em tamanho amostral e tempo de seguimento, embora o CLEAR SYNERGY tenha aumentado sua robustez ao incluir mais pacientes 7.062 vs. LODOCO2 5.522 e COLCOT 4.745.

População e Timing do Tratamento: O LODOCO2 focou na DAC crônica e estável, ao passo que o COLCOT e o CLEAR SYNERGY iniciaram a colchicina em pacientes pós-IAM ainda na fase aguda. Sabemos que DAC crônica e aguda são duas entidades distintas que diferem sobremaneira com relação ao risco de MACE. Seguramente a população do CLEAR era de maior gravidade, até 95% dos pacientes tinham IAM com IAM CSST e os pacientes com IAM sem supra de ST, precisavam atender pelo menos um dos seguintes critérios para serem incluídos: FE ≤45%, diabetes, doença multiarterial, IM prévio ou idade >60 anos. Além disso, mesmo entre COLCOT e CLEAR SYNERGY, que focaram nos casos agudos, houveram diferenças. O CLEAR iniciou o tratamento mais precocemente (média 72 horas após a ICP) , ao passo que o COLCOT teve uma média de 13,5 dias pós evento. Esta diferença pode ter sido crucial, considerando a dinâmica temporal da inflamação no pós-IAM. Embora no estudo CLEAR o PCR tenha tido queda significativa no grupo colchicina, seus níveis ainda se mantiveram altos quando comparado aos outros estudos. 

Contexto Pandemia COVID-19: Único entre os três, o CLEAR SYNERGY foi conduzido durante a pandemia de COVID-19. Este fator não pode ser subestimado, dada a profunda influência da pandemia nos cuidados de saúde, perfis de risco dos pacientes e condução dos estudos. 

RESULTADOS CLEAR SYNERGY

O desfecho primário de eventos CV adversos maiores, composto por morte CV, IAM, acidente vascular cerebral ou revascularização induzida por isquemia, para colchicina vs. placebo em 5 anos, foi: 9,1% vs. 9,3%, razão de risco (HR) 0,99 (intervalo de confiança [IC] de 95% 0,85-1,16), p = 0,93.

Resultados secundários para colchicina vs. placebo em 5 anos:

  • Morte CV: 3,3% vs. 3,2%, HR 1,03 (IC 95% 0,80-1,34)
  • Morte por todas as causas: 4,6% vs. 5,1%, HR 0,90 (IC 95% 0,73-1,12)
  • IAM: 2,9% vs. 3,1%, HR 0,88 (IC 95% 0,66-1,17)
  • Revascularização guiada por isquemia: 4,6% vs. 4,7%, HR 1,01 (IC 95% 0,81-1,17)
  • Níveis de PCR  em 3 meses: 3,0 vs. 4,3 mg/dL, p < 0,001

Resultados de segurança para colchicina vs. placebo:

  • Diarreia: 10,2% vs. 6,6%, p < 0,001
  • Infecção grave: 2,5% vs. 2,9%, p = 0,85

Implicações para a Prática Clínica

  1. Individualização do Tratamento: A colchicina pode ainda ter um papel importante em subgrupos específicos de pacientes, particularmente aqueles com DAC crônica estável ou em fases mais tardias pós-infarto. Em suma, quando o processo inflamatório já não é tão exuberante como em pacientes com IAM na fase precoce. 
  2. Consideração do Perfil de Risco: Pacientes com DAC crônica e evidência de inflamação residual (PCR ≥2) podem ser os candidatos mais apropriados para terapia com colchicina.
  3. Monitoramento Cuidadoso: Ao prescrever colchicina, devemos estar atentos aos efeitos colaterais (gastrointestinais) e interações medicamentosas, dosando risco vs. benefício.
  4. Necessidade de Mais Pesquisas: Estudos adicionais são necessários para esclarecer o papel da colchicina em diferentes subgrupos de pacientes e em diferentes cenários da doença coronária.

Opinião pessoal:

Sob a luz das evidências disponíveis, acredito que a colchicina se designe à pacientes com DAC crônica, com inflamação crônica e de baixo-moderado grau, já sabendo que o objetivo não é reduzir óbito, visto a ausência desse benefício em todos os estudos com a droga, mas de certa forma, melhorar o prognóstico e até qualidade de vida, ao reduzir IAM e revascularização adicional. O benefício parece modesto, mas não o bastante para abandonarmos a única estratégia acessível e custo-eficaz, capaz atuar na redução do risco residual inflamatório em pacientes selecionados com DAC crônica. Por outro lado, não entraria com a droga para pacientes agudos. 

Conclusão

No estudo CLEAR SYNERGY, a colchicina iniciada no pós IAM precoce não reduziu o desfecho composto primário de morte CV, IAM, acidente vascular cerebral, como visto no COLCOT e LODOCO2. 

Os estudos LODOCO2, COLCOT e CLEAR SYNERGY OASIS-9 representam marcos importantes na investigação do papel da colchicina na prevenção secundária. Suas divergências não diminuem a importância de cada um, mas destacam a complexidade da doença coronária e a necessidade de uma abordagem nuançada na interpretação de evidências clínicas. Por ora, em pacientes com DAC crônica, a colchicina permanece como a única medicação para redução do risco inflamatório residual, recomendação classe 2a da diretriz europeia de DAC crônica 2024. Em pacientes agudos, o benefício parece incerto ou muito modesto. Diante de dois estudos divergentes, aguardamos novas evidências. 

Referências: 

Presented by Dr. Sanjit S. Jolly at the Transcatheter Cardiovascular Therapeutics meeting (TCT 2024), Washington, DC, October 29, 2024.

Nidorf SM, Fiolet ATL, Mosterd A, et al. LoDoCo2 Trial Investigators. Colchicine in Patients with Chronic Coronary Disease. N Engl J Med. 2020 Nov 5;383(19):1838-1847.

Hansson GK. Inflammation, atherosclerosis, and coronary artery disease. N Engl J Med 2005;352:1685-95.

Ridker PM, Everett BM, Thuren T, et al. Antiinflammatory therapy with canakinumab for atherosclerotic disease. N Engl J Med 2017;377:1119-31.

Ridker PM, Everett BM, Pradhan A, et al. Low-dose methotrexate for the prevention of atherosclerotic events. N Engl J Med 2019;380:752-62.

Tardif JC, Roubille F, et al. Low-Dose Colchicine after Myocardial Infarction N Engl J Med 2019; NEJMoa1912388

Quando e como revascularizar o paciente na prática?

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Dr. Luiz Augusto Lisboa, Dr. Luís Roberto P. Dallan, Dra. Luhanda Monti e Dr. Carlos Campos discutem um dos temas mais polêmicos da cardiologia na era pós-ISCHEMIA, que é a indicação e escolha da modalidade de revascularização do miocárdio, sob a ótica de um hemodinamicista, uma cardiologista clínica e dois cirurgiões.
Anote na agenda: em breve lançaremos o Curso Fundamentos em Síndrome Coronária Crônica. Nosso time de especialistas trarão até você as principais atualizações sobre o tema. Fique ligado!

 

O coração do maratonista: a ciência do endurance e a saúde cardiovascular

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As atividades de endurance têm algum efeito na saúde cardiovascular? Esse é o tema deste bate-papo entre os Drs. Roger Godinho, Thiago Marinho e Fábio Conejo.

 

 

Segurança a curto e longo prazo da DAC crônica não tratada em pacientes submetidos a TAVI

Marco Antonio Smiderle Gelain, Residente de Hemodinâmica Incor/HCFMUSP

Descubra o impacto da DAC crônica não-revascularizada em pacientes submetidos a TAVI. Estudo realizado na Cleveland Clinic revela importantes informações sobre essa condição.

Em janeiro de 2024 foi publicado na European Heart Journal um estudo realizado na Cleveland Clinic, nos Estados Unidos, sobre o impacto da DAC crônica não-revascularizada em pacientes submetidos a TAVI¹. Atualmente, sabemos que DAC crônica e a estenose aórtica (EAo) frequentemente coexistem, em uma frequência de 15 a 80%². Existe também o debate sobre qual seria o melhor momento – e se existe a necessidade – de revascularizar o paciente portador de DAC crônica que vai ser submetido a TAVI. Ambos os cenários – angioplastia em paciente com EAo severa, e TAVI em paciente com DAC severa apresentam riscos importantes específicos. No entanto, artigos dedicados ao estudo do melhor momento da revascularização não renderam recomendações claras³, sendo publicado em 2023 um consenso Europeu⁴ sobre o manejo da DAC crônica em pacientes submetidos a TAVI, porém mantendo-se grande heterogeneidade de condutas entre os diversos serviços de hemodinâmica ao redor do mundo.

O estudo foi uma coorte retrospectiva de pacientes submetidos a TAVI entre 2015 e 2021. Pacientes que já tivessem sido revascularizados com angioplastia foram excluídos do estudo. Os desfechos avaliados foram periprocedimento (complicações como choque cardiogênico, arritmias e morte) e MACE – morte, IAM, AVC e revascularização não planejada – a longo prazo. Os 1911 pacientes incluídos foram categorizados em 4 grupos com relação a DAC crônica: DAC não-obstrutiva (1432 pacientes), DAC de risco intermediário que compreendeu DAC uniarterial >70% (116 pacientes), DAC de risco alto, que compreendeu DAC biarterial >70%, DA proximal >70% ou TCE 50-69% (199 pacientes), e DAC de extremo risco, que compreendeu DAC triarterial >70% ou TCE >70% (164 pacientes). Uma das limitações do estudo foi justamente a divisão desses grupos, que foi arbitrária, e não levou em conta ferramentas consolidadas como o Syntax Score. Entretanto há um consenso de que não houve prejuízo à principal mensagem transmitida pelo estudo.

Para efeito de análise estatística, foram comparados dois grupos: DAC não-obstrutiva x DAC obstrutiva, e também comparados cada grupo de DAC obstrutiva com a DAC não-obstrutiva, com relação aos desfechos do estudo. 

A idade média dos pacientes foi de 78 anos, com um STS score médio de 5,4%, e 70% apresentavam-se em classe funcional NYHA 3, e fração de ejeção média de 57%. 95% dos procedimentos foram realizados via transfemoral e em 91% dos casos foi utilizada a prótese Edwards SAPIEN 3, que é balão expansível e apresenta um melhor perfil quando pensamos em um acesso mais fácil posteriormente às artérias coronárias.

A taxa de complicações periprocedimento foi baixa, apenas 7 mortes (0,4%) e 1 paciente com necessidade de implante de balão intra-aórtico durante o procedimento. Não houve diferença entre os grupos comparados (p=0.6). Ou seja, uma das grandes mensagens deste artigo foi essa: que houve segurança periprocedimento na realização de TAVI em pacientes com DAC obstrutiva não tratada.

O seguimento médio pós-procedimento dos pacientes foi de 1,32 anos, também não sendo observada diferença de MACE ou morte por todas as causas. Houve, entretanto, aumento da taxa de síndrome coronariana aguda e de revascularização não planejada no grupo de DAC obstrutiva, a qual foi de 1% no grupo de DAC não-obstrutiva e de 2,4 a 4% no grupo de DAC obstrutiva, sem aumento linear conforme a gravidade da DAC, o que pode corroborar uma inadequada classificação inicial dos grupos. A separação das curvas ocorre por volta de 8 a 12 semanas, portanto, caso o paciente permaneça sintomático após o procedimento, existe a recomendação no próprio estudo de que haja um limiar mais baixo para a revascularização desses pacientes. É ressaltado que não houve dificuldade ou impossibilidade de angioplastia nos pacientes submetidos a TAVI. 

Importante frisar que a estratificação dos pacientes com relação a fração de ejeção não mostrou relação com piora de desfechos. 

Como mensagens finais, temos que DAC crônica, independentemente de sua gravidade e extensão e da fração de ejeção, pode ser inicialmente tratada clinicamente em pacientes candidatos a TAVI com segurança. O estudo não dita, porém, que todos devem ser submetidos a TAVI primeiro: pacientes com sintomas coronarianos importantes, síndromes instáveis, lesões coronarianas ostiais, tipo da prótese utilizada podem eventualmente ser submetidos a angioplastia antes. O manejo da DAC crônica após a TAVI pode ser feita de acordo com guidelines específicas, porém pode-se ter um limiar mais baixo para revascularização caso sintomas persistam.

 

Referências

  1. Ian Persits, et al. Impact of untreated chronic obstructive coronary artery disease on outcomes after transcatheter aortic valve replacement. European Heart Journal, 2024. https://doi.org/10.1093/eurheartj/ehae019
  2. Hajar R. Risk factors for coronary artery disease: historical perspectives. Heart Views 2017;18:109. https://doi.org/10.4103/HEARTVIEWS.HEARTVIEWS_106_17
  3. Patterson T, Clayton T, Dodd M, Khawaja Z, Morice MC, Wilson K, et al. ACTIVATION (PercutAneous Coronary inTervention prIor to transcatheter aortic Valve implantaTION): a randomized clinical trial. JACC Cardiovasc Interv 2021;14:1965–74. https://doi.org/10.1016/j.jcin.2021.06.041

4. Tarantini G, Tang G, Nai Fovino L, Blackman D, Mieghem NMV, Kim WK, et al. Management of coronary artery disease in patients undergoing transcatheter aortic valve implantation. A clinical consensus statement from the European Association of Percutaneous Cardiovascular Interventions in collaboration with the ESC Working Group on Cardiovascular Surgery. EuroIntervention 2023;19:37–52. https://doi.org/10.4244/EIJ-D-22-00958