Fundamentos em Doenças Valvares – Tudo o que Você Precisa Saber Sobre Insuficiência Aórtica – Episódio 3: Eletrocardiograma e Radiografia de Tórax
Dr. Antônio Nascimento
Eletrocardiograma
O eletrocardiograma (ECG) é um exame complementar que ajuda a sugerir cronicidade e repercussão hemodinâmica da insuficiência aórtica, embora não quantifique a gravidade de forma definitiva. Na insuficiência aórtica crônica importante, o achado mais frequente é a presença de sinais de sobrecarga do ventrículo esquerdo (critérios de hipertrofia ventricular esquerda por voltagem) e, em fases mais avançadas, alterações secundárias de repolarização (“strain”). É possível observar desvio do eixo para a esquerda e distúrbios de condução (por exemplo, bloqueios divisionais ou bloqueio de ramo esquerdo), refletindo remodelamento e/ou doença miocárdica concomitante. De modo geral, não há um padrão eletrocardiográfico específico para a valvopatia; o ECG funciona principalmente como marcador indireto de repercussão no ventrículo esquerdo.
Na insuficiência aórtica aguda importante, o ECG pode ser pouco específico (taquicardia sinusal e alterações inespecíficas de repolarização) e a ausência de hipertrofia ventricular esquerda não exclui gravidade; ao contrário, pode sugerir instalação recente, uma vez que não houve tempo para remodelamento. Em alguns cenários, podem ocorrer sinais de isquemia subendocárdica, relacionados à queda da pressão diastólica aórtica e piora da perfusão coronariana.
Radiografia de tórax
A radiografia de tórax é útil para caracterizar o estágio (agudo versus crônico) e para detectar repercussões cardiopulmonares e pistas etiológicas. Na insuficiência aórtica crônica importante, é comum observar cardiomegalia às custas de aumento do ventrículo esquerdo, com alongamento do contorno cardíaco e deslocamento inferior e lateral do ápice, típico de sobrecarga de volume. Pode haver aumento do índice cardiotorácico. Quando existe aortopatia associada, pode-se notar dilatação da aorta ascendente e arco aórtico, com botão aórtico mais evidente; eventualmente há calcificações valvares ou da parede aórtica.
Sinais de congestão pulmonar (redistribuição vascular, linhas B de Kerley, derrame pleural) sugerem descompensação e podem ocorrer na insuficiência aórtica crônica avançada ou em insuficiência aórtica aguda. Um ponto prático: na insuficiência aórtica aguda grave pode haver edema pulmonar com coração de tamanho normal, pois não houve tempo para remodelamento. Assim, a combinação de congestão pulmonar exuberante com ausência de cardiomegalia deve aumentar a suspeita de forma aguda e de etiologias que mudam urgência e estratégia (por exemplo, endocardite infecciosa ou dissecção de aorta), sempre integrada ao quadro clínico e à ecocardiografia.
Referências Bibliográficas
1. Tarasoutchi F, Montera MW, Ramos AI, Sampaio RO, Rosa VE, Accorsi TA, Santis AD, Fernandes JR, Pires LJ, Spina GS, Vieira ML. Atualização das Diretrizes Brasileiras de Valvopatias–2020. ArqBras Cardiol. 2020 Oct 23;115:720–775.
2. European Society of Cardiology (ESC). 2025 ESC Guidelines for the management of valvular heart disease. Eur Heart J. 2025.
3. Braunwald E, Zipes DP, Libby P, Bonow RO, Mann DL, Tomaselli GF, editors. Braunwald’s Heart Disease: A Textbook of Cardiovascular Medicine. 12th ed. Elsevier; 2022.
4. Revista da SOCESP – Cardiologia Prática. Atualização do Diagnóstico e Tratamento das Valvopatias. Volume 32, nº 2, Abril/Junho 2022. Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (SOCESP).
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