Dispositivos Valva Mitral – Parte 2

Mauricio Felippi de Sá Marchi | Pedro Calomeni

Na primeira parte deste editorial escrevemos sobre características gerais das biopróteses utilizadas nos implantes transcateter de bioprótese mitral (TMVI) e os principais dispositivos em desenvolvimento para o tratamento de valvas nativas não calcificadas com insuficiência mitral grave.

Nesta segunda parte falaremos sobre o tratamento de pacientes com valva mitral calcificada (valve-in-mitral annular calcification, ViMAC), pacientes com disfunção de anel mitral (valve-in-ring, ViR), pacientes com disfunção de bioprótese mitral (valve-in-valve, ViV) e complicações imediatas e tardias de intervenções transcateter na valva mitral.

Valva mitral nativa calcificada (valve-in-mitral annular calcification, ViMAC)

A calcificação anular mitral (MAC) é um processo degenerativo, acometendo a base fibrosa da valva mitral, cuja prevalência pode chegar a 15% da população idosa. Uma das definições mais utilizadas para MAC grave é o volume total de calcificação de 750 mm3 Agatston na valva mitral. A MAC grave pode estar associada tanto à insuficiência quanto à estenose mitral.

O tratamento cirúrgico dessa entidade é complexo devido ao risco elevado de complicações importantes, como hemorragia, ruptura ventricular ou ruptura atrioventricular. Até o momento não há dispositivos específicos para a abordagem da MAC grave. Neste cenário, as biopróteses aórticas transcateter expansíveis por balão podem ser usadas de forma off-label em casos de MAC grave.

No MAC Global Registry o resultado do sucesso técnico do TMVI em MAC grave foi de 76,7% em 116 pacientes de 51 centros. A complicação mais frequente foi a obstrução da via de saída do ventrículo esquerdo (VSVE), com comprometimento hemodinâmico em 11,2% dos casos. Trata-se de um procedimento com alta taxa de mortalidade, de 25% em 30 dias e 53,7% em 1 ano de seguimento no mesmo registro. Entretanto, é importante ponderar que os pacientes desse registro apresentavam alto risco cirúrgico (média STS de 15,3).

Disfunção de anel mitral (valve-in-ring, ViR)

A anuloplastia da valva mitral é um dos tratamentos mais realizados para pacientes com insuficiência mitral grave degenerativa. Entretanto, no seguimento de 20 anos, 15% deles apresentam insuficiência moderada a grave. Nos últimos anos, pacientes com alto risco de reintervenção cirúrgica e insuficiência de anuloplastia foram submetidos com sucesso ao TMVI com o uso de valvas aórticas percutâneas. A seleção de tamanho das próteses é feita com base na área do anel mitral medida pela tomografia. Em um registro de larga escala, o sucesso técnico foi obtido em 70% dos pacientes, e a mortalidade em 30 dias de 6,8%.

Disfunção de bioprótese mitral (valve-in-valve, ViV)

Durante os primeiros 10 anos após a substituição da valva mitral, até 35% dos pacientes podem necessitar de uma nova operação. Atualmente o ViV, que consiste no TVMI no lugar da bioprótese disfuncionante, é uma opção consolidada para pacientes com disfunção de bioprótese mitral e alto risco cirúrgico. O registro MViV Sapien 3 demonstrou resultados positivos do TVMI em 1529 pacientes nesse cenário. O acesso transeptal foi a principal via de acesso para o TMVI em 86,7% dos casos, com mortalidade em 1 ano de 16,7% .

Complicações imediatas e tardias após intervenção transcateter da valva mitral

Obstrução da Via de Saída do Ventrículo Esquerdo

A obstrução da VSVE é uma das complicações mais letais, com taxas de mortalidade intra-hospitalar de até 62%. No planejamento pré-intervenção do TMVI devemos calcular a nova área da VSVE ou Neo-VSVE. Neo-VSVE é o termo utilizado para a área residual na via de saída do ventrículo após o implante de uma bioprótese transcateter. A taxa de obstrução da Neo-VSVE é de 2,2% para ViV, 5% para ViR e 39,7% para ViMAC. Essa avaliação do risco de obstrução é baseada em medidas de tomografia computadorizada multifásica no começo da sístole. Uma Neo-VSVE <170 a 190 mm2 está associada a um alto risco de obstrução da VSVE nos casos de ViV, ViR e ViMAC. Nesse contexto, diferentes técnicas foram descritas para prevenir ou intervir na obstrução da VSVE durante TMVI como a ablação septal alcoólica e a laceração do folheto mitral anterior (técnica de LAMPOON). A utilização dessas técnicas deve ser ponderada durante a fase de planejamento do procedimento, a fim de diminuir o risco de obstrução da VSVE. Trombogenicidade O TVMI está associado a aumento do risco de eventos trombóticos, devido ao o fluxo turbulento ao redor da valva, a uma possível nova fibrilação atrial decorrente do procedimento ou ainda às outras comorbidades que os pacientes submetidos ao TVMI apresentam que podem aumentar o risco de trombose na bioprótese. Até o momento, não há recomendações estritas em relação à terapia antitrombótica pós-TMVI, de forma que a maioria das diretrizes recomendam anticoagulação com antagonistas da vitamina K (como varfarina) por pelo menos pelo menos 3 meses, a fim de reduzir o risco de eventos tromboembólicos, como o acidente vascular encefálico e o infarto agudo do miocárdio, até que a bioprótese esteja totalmente endotelizada. Sangramento Eventos relacionados a sangramento ocorrem em 10-40% dos pacientes após TMVI e estão associados a um importante aumento de morbimortalidade. Na maioria dos casos, os sangrementos devem-se à abordagem transapical e ao uso de acesso com dispositivos de grande calibre (>30 Fr). A necessidade de terapia antitrombótica pós-TMVI é outro importante fator para o  aumento do risco de sangramentos clinicamente importantes nesses pacientes.

Referências:

Gheorghe L, Brouwer J, Wang DD, Wunderlich N, Rana B, Rensing B, Eefting F, Timmers L, Swaans M. Current Devices in Mitral Valve Replacement and Their Potential Complications. Front Cardiovasc Med. 2020 Nov 27;7:531843. doi: 10.3389/fcvm.2020.531843. PMID: 33330637; PMCID: PMC7728606